” I sing so I won´t cry..” Palawan, Part III

“Canto para não chorar..”

O karaoke. Essa caixinha digital de música capaz de concretizar o sonho de pertencer às luzes da ribalta a qualquer um – afinal não é só no banho e no carro que até tenho jeito para a coisa. De origens nipónicas, a palavra karaoke significa cantarolar sem banda ou orquestra. Resulta da junção de “kara”, que significa “vazio” em japonês, e “oke”, que advém de “okesutora”, que por sua vez significa “orquestra” – “orquestra vazia” ou “ sem orquestra ou banda”.

Pensava eu que impunha já uma boa dose de um “fanatismo saudável” pelo mecanismo até descobrir que este é o passatempo preferido dos Filipinos. Até a remota vilazinha de Langogan, no proctal de Judas em Palawan, não escapou à febre e exibia um exemplar carismático no único bar das redondezas: uma espécie de consola de arcada género “flippers” com uma Panasonic de antiquário em cima e, cereja no topo da mesma, um napronzito de renda felpudo que dava todo um ar de casa de avó portuguesa.

Karaoke Palawan

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Fomos uma noite arrastadas pelo staff do Mangorve Resort para um duelo de microfones. Finalmente ia pôr em prática anos de concertos a solo no chuveiro. As músicas apresentavam-se num molho de folhas sujas e amareladas pelo tempo e pelo entornar de cervejas. Algumas, escritas à mão, pareciam manuscritos hieróglifos, requerendo um manuseamento cuidado para não se desfazerem.

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Coloca-se uma moeda, digita-se o código da música pretendida e voilá.. é só “chamar a música” e acompanhar a letra. Especial atenção para o pano de fundo do ecrã onde passavam os “lyrics” – um ramalhete fotográfico de modelos bombocas dos anos 80/90, que desfilavam em bikinis mais cavados que a falésia do Cabo Espichel. Vislumbrei a Cindy Crawford e a Laetitia Casta bamboleando seus pandeiros entre os pixels, desconcentrando em massa a frente masculina de cantores filipinos, que atrapalhada tentava incutir “seriedade” ao “microfone”..

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Descobri rapidamente que não nasci para a música, mal a primeira Filipina pegou no microfone. Outras duas se seguiram, de cordas vocais harmoniosas de fazer qualquer “conchita” depenar a barba. O instrumento foi de mão em mão, atraindo locais que se juntaram, curiosos pela algazarra e por uma onda de apoio moral às “branquelas forasteiras” de voz de cana rachada, que “tentavam” cantar.

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Reparei que têm especial gosto por músicas de teor melodramático elevadas a um exponente máximo de lamechice. Inquiri a Mae (para quem não se lembra a minha primeira flatmate no Dubai, Filipina de gema) acerca deste favoritismo por músicas de fazer o amor devagarinho..

Tal como o português sofreu influência da telenovela brasileira, também o filipino foi pragueado com telenovela espanhola, resíduos do domínio “spaniardo”. Se levar com duas telenovelas da tvi danifica a massa cinzenta, imagine-se o que é levar com telenovela espanhola do meio-dia às oito, horário nobre destas nas Filipinas. Ao pé disto, as tardes da Júlia até têm um travozito a programa cultural.

Assim, a “desperate housewife” filipina papa todos os melodramas amorosos entre as tarefas domésticas absorvendo a tragédia, a faca e o alguidar também. Sofrem por tabela os amores e desamores das personagens preferidas, sonhando lucidamente com aquele encontro ao virar da esquina que irá mudar a vida para sempre. Daí idolatrarem músicas para todos os tipos de amor – correspondidos, não correspondidos, trágicos, à distância, de cortar os pulsos, etc.

Entre a panóplia de músicas cantadas aqui ficam algumas..

• Aquele clássico..  “Olho do Tigre”..

Survivor - Eye of the tiger

• “.. e se Deus nosso senhor Jesus Cristo fosse um estranho como nós no autocarro a fazer o caminho para a casa..” – viva os anos 90 para sempre!!

Joan Osborne - One of UsJoan Osborne - One of Us

• “Mãezinha.. a vida apenas começou, mas eu tenho que dar de frosques..” O Freddy nunca será esquecido!

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• “Nós vamos ficar juntos, todo o dia e toda a noite.. com a lua sobre a fronha e a partilhar o mesmo alojamento!” O Bob, sempre imortal!

SAM_3458 • “.. e arrisca, arrisca..!” – Kelly Clarkson sempre com mensagens positivas para a malta!

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• Creio que esta música está sempre presente quando o assunto é cantar..

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• As músicas de “fazer o amor devagarinho” entoadas pelas nossas amigas do resort..

SAM_3435SAM_3442SAM_3446 • E.. para terminar em grande.. uma música mesclada entre o inglês e o tagalog, que muito sinceramente não sei se quero saber o seu verdadeiro significado e para não ferir susceptibilidades não farei a tradução completa: “Faz uma chamadinha e agarra na minha..

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Contudo, esta “entrega” emocional aos melodramas televisivos é apenas um escape à realidade dura nas Filipinas, uma nação de pobreza persistente dependente da troca de perdas emocionais por ganhos materiais, onde famílias se desmembram pelo mundo em prol de transferências bancárias capazes de subsistir aqueles que ficaram para trás. Esta “exportação” de pais, maridos, irmãos tornou-se assim uma fonte lucrativa, onde os exportados são muitas vezes submetidos a condições precárias pelos seus empregadores e o seu retorno por uns dias de férias, uma vez em dois anos, significa um corte na fonte de subsistência enquanto se tentam matar as saudades, que mais sabem a prejuízo.

Se quem canta seus males espanta.. talvez nas Filipinas há mesmo quem cante para não chorar.. de dor, de saudade, de esperança por aquele final feliz que teima em não sair do ecrã..!

Inshallah habibis

Mery Al Bonifácio

“I sing so I won´t cry..”

The Karaoke, that magical digital box able to accomplish everyone´s X-Factor dream: “Wow! Beyond the shower and the car, I do have a voice!” Originally from Japan, the word karaoke literally means “empty orchestra”- singing without band or orchestra (“kara”= empty; “oke” = “okesutora”, which means orchestra in japanese.)

I thought I was fanatic enough about karaoke, until I found out it´s the Philippines favorite hobby, with a remarkable spread of karaoke machines everywhere. Even Langogan, the remote little village in “Judas Ass”* of Palawan, had a quite peculiar one. It looked like an old arcade flippers machine, topped with an extremely old Panasonic television, decorated with a fuzzy apron, the ones grannies LOVE to spread around their houses.

Karaoke Palawan

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One night, we were challenged to join the Mangrove Resort staff for a microphone duel at the village bar, the only nightlife spot on the surroundings. I was excited, finally the chance for my vocal chords shine after so many years of solo concerts in the shower. The playlists were old and dirty, some of them written by hand required a careful maneuver, as they look archaeologic manuscripts.

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Put a coin, dial the code and voilá.. “please don´t stop the music..”! Special attention for the TV´s background while the lyrics passed – photoshoots of bombshell models from the 80 and 90´s. Cindy Crawford and Laetitia Casta were there also, posing along the pixels with quite low-cut excavated bikinis, a major distraction for the male filipino singers, who tried their best to keep up the “microphone” with a “professional posture”..

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I soon realized that music isn´t my thing when the first Filipino competitor introduced her voice on the microphone. Other two sang harmoniously, able to draw Conchita Wurst´s beard. Locals approached the bar, curious about such “racket” and kindly encouraged us on our “quality” performances. I shall thank them for the remarkable moral support!

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I noticed they are addicted to love melodramatic, a bit cheesy songs. I asked Mae (my  first flatmate in Dubai) about this interesting cultural fact. According to her, apart from karaoke, Filipinos love spanish TV series, the so called “telenovelas”. Among their domestic shores, filipino “desperate housewives” follow all of them religiously from 12 to 8pm. They get emotionally grabbed to the love stories on the screen, suffering with the characters their misfortunes, daydreaming about that romantic encounter around the corner able to change their lives forever. Therefore, they adore songs for all types of love relationships – tragic, dramatic, long distance, platonic, etc.

Here are a few songs we “tried” to sing on the karaoke:

• “Eye of the Tiger” – that classic full of empowerment!

Survivor - Eye of the tiger

• “.. just a stranger on the bus, trying to make his way home..” – Aw the 90´s.. probably the best, yet the most dramatic period on music history.. Kurt Cobain died, Justin Bieber was born..!

Joan Osborne - One of Us

Joan Osborne - One of Us

• Freddy shall never be forgotten..!

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• Bob, the immortal..

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• Clarkson always with positive messages..!

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• Gallagher Bros always in the house..

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• We sang in Spanish as well..!

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• Few love melodramatic cheesy songs sang by our filipino mates..

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• For a glorious closure, a mix between english and tagalog. I don´t know what´s the real meaning on the Philippines, but in english and even in portuguese when you translate it, sounds a bit “booty callish”: “Make a call and grab my birdie..????” – Well..

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Countries with persistent poverty, such as Philippines, face nowadays a quite unfair trade, which has become one of the most important sources of income – “emotional loss for material goods”. Every Filipino family has at least one relative – a husband, a sister, a father – living abroad, most certainly in precarious conditions, working long-lasting hours to guarantee monthly transfers for the family. It´s easy to understand why Filipinos are so emotionally attached to “telenovelas” or long lasting love songs – a husband or wife; boyfriend or girlfriend; a sister, brother, mother or father might be away. The return is uncertain, holidays might happen once in two years. If reality presents itself with such tuff welcoming card, it doesn´t cost to daydream along towards a happily ever after ending.

Evaldo Braga, a Brazilian singer, says in his lyrics “I sing so I won´t cry.” In the Philippines I do believe people sing not only to stop tears, but for hope, to ease the pain and the hole left by long-distance, to call up that happy closure that doesn´t come out and insists to remain on the TV screen.

Inshallah habibis!

Mery Al Bonifácio

* “Judas Ass” – portuguese slang expression to mention a place which is really far or in a very remote area.

 

 

 

 

 

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