If you give a little love..

Dezembro foi o meu mês de reserva. Significa isto que não tive um roster fixo. Voos, dias de folga, standbys apareciam à medida que os dias passavam. Para contextualizar a malta na gíria aeronáutica, um standby é um período de tempo em que ou ficamos em casa ou no aeroporto.. à espera que nos digam para onde vamos voar através de um chamadinha do “crew control”, que é como Deus nesta altura do campeonato – “Olá Maria, temos um voo para si..” – e pode ser para qualquer lado. É uma lotaria constante onde podem surgir jackpots interessantes, ou não. É como tudo na vida, como a famosa frase do Tom Hanks no filme “Forest Gump”. É como a tal caixa de chocolates, nunca se sabe o que nos vai calhar. Confesso que toda esta incógnita acerca da “lavoura” do dia a seguir tem a sua piada, o seu q.b. de emoção!

Depois de Casablanca, Londres, uma ida e volta a Atenas e a Karachi fui convidada a fazer as malas para Dhaka no Bangladesh. Ao tempo que queria lá ir para visitar e fotografar um projecto de caridade de uma comissária de bordo portuguesa – a Maria da Conceição. A Maria começou o Dhaka Project há uns anos atrás aquando da sua primeira estadia em Dhaka. A quantidade de crianças que viu a viver em condições de extrema miséria incentivou-a a começar este projecto com o intuito de lhes proporcionar um ensino, uma oportunidade de sonhar na vida.

Para meu grande descontentamento, as instalações onde decorre o projecto, que funciona como uma escola, estavam fechadas  porque voilá.. era fim-de-semana. “Mas hoje é sexta-feira..” – retorqui. Mas claro. Os dias destinados ao fim-de-semana são diferentes nesta parte do mundo. Sexta e Sábado são já considerados os dias de descanso semanal, enquanto Domingo marca o início da semana, tal como no Dubai. Perguntei aos restantes membros da tripulação que já haviam visitado Dhaka o que poderia fazer durante aquelas 24 horas. “Nada.. não é seguro andar por aqui, deves ficar pelo hotel!”. Uma estadia dentro de um hotel.. que felicidade! Toda eu transpirava euforia por tão enfadonha notícia. Dirigi-me ao restaurante do hotel com o intuito de comer um bisonte, dado o estado agravado da minha fome. Niels, um membro da tripulação da África do Sul, juntou-se a mim em tal missão. Começou a falar português do nada para minha grande surpresa e espanto. É que o rapaz tinha vivido um ano em Santa Catarina no Brasil e falava fluentemente português. Fazia questão em enfatizar a famosa dupla de palavrões começada por “F” e “C” e tinha um sotaque bastante engraçado, a rossar no europeu do leste. Fiquei contente porque de certa forma sabia que ele nunca me iria perguntar se Portugal era na América do Sul..! Ás vezes tenho o náuseo desprazer de ouvir este tipo de perguntas merdosamente desconcertantes. Fico a escassos segundos de uma reacção alérgica com ganas de fazer qualquer ignorante engolir um mapa do mundo e arrotar o hino nacional a seguir. 

O chefe de cabine juntou-se a nós para o almoço e decidi ouvir uma segunda opinião.. “Não dês ouvidos ao que estes gajos dizem.. é seguro! Não te afastes é da zona do hotel..!”.

Acabados de almoçar decidimos dar início ao nosso passeio sem destino por Dhaka. Ao virar da esquina dois meninos corriam na nossa direcção erguendo bouquets de flores amarelas: “Flower, flower..!” – gritavam para nós. Eu e o Niels não tínhamos trazido dinheiro nenhum. Nós só queríamos caminhar e observar os arredores. Á medida que fomos caminhando pela rua, o nosso look estrangeiro passava cada vez menos despercebido à vista desarmada. Taxistas de bicicleta vindos de todas as direcções soltavam aos quatros ventos os mais variados preços por um passeio nos seus veículos. Mas.. nós não tínhamos dinheiro. Só queríamos andar. Dois irmãos gémeos na casa dos 10, 11 anos vieram ao nosso encontro. Diziam saber os sítios indicados para comprar artigos de marca a preços baratos. Mas.. não tínhamos dinheiro nenhum. Só queremos dar uma volta, dissemos.

“ ´Sista´, posso-te levar a sítios onde vendem Armani e Louis Vitton a preços muito baratos..!” – ele insistiu.
“`Bro`.. não temos dinheiro nenhum.. só queremos passear” – repondi-lhe.“És uma mulher de negócios..? – ele perguntou enquanto tirava do bolso um maço de autocolantes com personagens da Disney – o seu negócio, a fonte de rendimento daqueles miúdos.
“Não.. nós trabalhamos no céu..!” – respondi, enquanto olhava para o Niels que já tinha o outro gémeo entrelaçado ao seu braço.
“Ahhh.. sim, nós sabemos.. vocês ´comida no avião´..! (“You plane food..”) – ele exclamou. Demorámos um pouco a perceber o significado daquela junção de palavras. Quando “lá chegámos” não pudemos deixar de soltar uma valente gargalhada. Para além de salvar vidas, armar e desarmar portas, gerir espaço para um sem número de pequenas e grandes malas de bagagem, sim.. nós servimos COMIDA no AVIÂO – “we ´PLANE FOOD´”. Os dois gémeos continuaram agarrados aos nossos braços, guiando-nos pelos meantros daquela cidade que desconhecíamos totalmente.

Devo dizer que não tenho nada de muito belo para descrever sobre Dhaka. Muitos prédios abandonados ou sob construção; passeios em terra batida repletos de lixo e buracos de onde saía um cheiro nauseabundo a esgoto. Crianças e bebés dormiam ou brincavam descalços e uma névoa cinzenta cobria a cidade.

Os dois gémeos tornaram-se os nossos guarda-costas. Sentimo-nos seguros ao seu lado, na medida em que evitámos que nos abordassem para o que quer que fosse. O que se encontrava no meu lado, queria ser dançarino e jogador de futebol. Adorava o Michael Jackson e mostrou-me alguns dos seus passos de dança, altura em que o tentei acompanhar encenando um “moonwalk” bastante rasca. Fiquei completamente desolada quando descobri que o seu jogador de futebol preferido era o Messi. Tentei persuadi-lo para o Cristiano Ronaldo, sem sucesso nenhum. Frequentemente me perguntava se eu estava feliz, terminando sempre “Ok.. se estás feliz, eu estou feliz!”. Os dois já não iam à escola. Não tinham dinheiro para continuar a estudar e ajudavam as suas famílias vendendo autocolantes na rua.

Ao final do dia, eu e o Niels decidimos ir buscar dinheiro ao hotel. Pedimos que nos levassem a um supermercado. “O que querem do supermercado..? – perguntámos. Queríamos comprar-lhes comida. Esperávamos ouvir doces, chocolates, coca-cola, bolachas. Mas os dois irmãos só queriam leite em pó e óleo para cozinhar. Comprámos duas embalagens gigantes de leite em pó e uma garrafa de óleo alimentar como eles pediram.

“Nada mais.. estás feliz?” – perguntei.
“Sim ´sista´.. muito feliz!” – ele respondeu.
“Se estás feliz.. eu estou feliz!” – disse-lhe, enquanto lhe afagava o cabelo negro.

Trouxeram-nos de volta para o hotel. Tínhamos que ir dormir. “Amanhã ´plane food´” – dissemos. Despedimo-nos um pouco com o coração nas mãos. Abraçaram-nos e partiram mais felizes do que quando os encontrámos pela primeira vez naquela mesma rua. Extraordinário como um pequeno gesto pode fazer toda a diferença no dia de alguém. Dar é um verbo tão mais grandioso que o receber propriamente dito e dois “sorrisos gémeos” valem por este e pelo outro mundo.IMG00179-20121214-1636

Para saber mais sobre o Dhaka Projekt:

http://www.thedhakaproject.org

Insha Allah Habibis!

Mery Al Bonifácio

December was a month of what we call in Portuguese, “pearls”! The “pearls” are little clumbsy happenings that can ruin your present situation but you manage to get out of them successfully with style and you just wonder.. how???

Starting on the day that I arrived 24 hours earlier to a flight, going through a whole afternoon in the hospital because of a piece of glass which decided to get stuck on my foot due to some barefoot dancing and last but not least, going to the airport ready to check-in on standby duty when actually I was supposed to be at home.. “standbying”! Oh.. and I almost forgot the Athens flight where I arrived at the aircraft almost at the same time of the passengers.

A “standby” is a period of time where you remain at home or at the airport mainly waiting for a call from the crew control, who plays like “God” – “Hey Maria, we have a flight for you..”- it can be anywhere!

December was my Reserve Month! Flights, days-off, standbys appeared on my roster on a daily basis. Was like playing lottery. You can hit very interesting jackpots.. or not. It’s like Tom Hanks quoted on Forest Gump – like the “so called” box of chocolate – You never know what you´re gonna get! I can say is thrilling, exciting – you never know where you going to be in the next following hours.

So after Casablanca, London, Athens, Karachi.. Dhaka in Bangladesh poped-up in my roster. I wanted to go there already to visit a charity project of a Portuguese Flight Attendant called Maria da Conceição. Maria started the Dhaka Project years ago when she visited Dhaka for the first time. She was completed heart-broken when she realized the miserable conditions where children were living. She decided to do something about it. Mainly give those children the possibility to go to school and get a chance to win in life.

However when I arrived to Dhaka, I was told the project, which works as a school, was closed. It was weekend. “But it´s Friday” – I replied. But of course.. the weekends are different in this part of the world. Friday and Saturday are officially weekend days, and the week starts at Sunday, just like in Dubai.

I asked other cabin crew, who have been in Dhaka before, what could I do during those 24 hours. “Nothing, it´s not safe to walk on the streets, you better stay here!”. A layover inside a hotel.. how amusing! I hit the restaurant aiming to eat a whole buffalo, accommodating to the idea there I was about to do nothing during that day. Niels, a South African crew, joined me for lunch. For my astonishment, he started speaking portuguese. He lived in Santa Catarina, Brazil for a year and spoke fluent portuguese with a cute eastern european accent. I was happy. At least I knew he was never going to ask if Portugal was in South America. Sometimes I have the nauseous displeasure of hearing this kind of shitty uncultured questions. I almost get an Anaphyletic Reaction. I feel like sticking a map on the person´s mouthpiece and force them to burp the portuguese National Anthem.

Our Purser joined us as well on the table and I decided to hear a second opinion – “Don´t listen to the crew.. it´s safe! Just walk around the hotel area and you should be fine.”

After lunch me and Niels left the hotel. Just around the corner two little boys holding bouquets of yellow roses came in our direction: “Flower, flower..!” – they screamed. We brought no money. We just wanted to walk around. As we continued, it got harder to cover our foreigner look. “Bike taxi drivers” were coming from every direction offering cheap prices for sightseeing. But, we had no money. We just wanted to walk around. Two little twin brothers start following us. They wanted to take us to very nice shops where we could buy branded clothes and items. But, we didn´t want to shop at all. We just wanted to walk, we said.

“But Sista, I can take you to good brands.. Armani, Louis Vitton” – he insisted
“Bro.. we don´t have money..!” – I said.
“You business woman..? – he asked while taking from his pocket a pack of stickers with Disney characters – his business, his source of money.
“No.. we work on the sky!” – I said looking to Niels at the same time, who already had the other twin grabbed on his harm.

“Awwww.. We know.. You plane food” – he said. By this time me and Niels cracked laughing when we understood what he meant with “plane food”. That’s exacly what we cabin crew do actually. Besides of saving lives, arming and disarming doors, manage space on a-tracks, yes.. we do serve FOOD on the PLANE! The two twins kept hanged in our arms while we were walking. They were guiding us all over town. We knew nothing about that place anyways.

I must say that Dhaka cannot be described for its “beauty”. A lot of buildings abandoned or under construction; sandy side-walks full of trash and holes for sewer, where infants were playing or just sleeping barefoot. There was a grey smog covering the city and a very strong nauseous smell would come every once in a while.

The two twins became our bodyguards. We felt safe with them, once we avoided all kinds of un-wanted approaches and commercial trades. The one on my side wanted to be a dancer and a football player. He loved Michael Jackson and showed me some of his moves, while I tried to beat him with my lousy “moon walk”. About football, I was heartbroken when he mentioned Messi as his hero. Unsuccessfully, I tried to persuade him towards Cristiano Ronaldo.

He often asked if I was happy – “Sista you happy?”
“Yes Bro, I´m happy!”.
“Good! If you´re happy, I´m happy!” – he always added.
Both quit school. They had no money to continue studying and mostly tried to help their family selling stickers on the street.

By the end of the day, me and Niels decided to go back to the hotel and get some money to buy food for them.“Can you take us to a supermarket?” – we asked. They took us to a market right in front of the hotel. “What do you guys want..?”. We expected to hear chocolates, candies, cakes, what so ever..! Instead we were asked for two great pots of milk powder and a bottle of oil for cooking. “Nothing else..? You happy..?” – we asked. “Yes Sista.. we are very”. “Good bro.. if you´re happy, we´re very happy then..!”

They took us to the hotel still hanged in our arms. We needed to sleep – “Plane Food” by the next day, we explained. Our hearts were broken by the time they hugged us to say goodbye. Our comfort relied on the fact that we managed to leave them happier than when we found them for the first time, on that same street. How amazing it was to make their day with such simple gesture. How grateful we were to put smiles on their faces. How grateful we were to put “twin smiles” on the world. If you give a little <3…IMG00179-20121214-1636

For more information about The Dhaka Project:

http://www.thedhakaproject.org

Insha Allah Habibis!

Mery Al Bonifácio

One thought on “If you give a little love..

  1. Fiquei feliz por encontrar este blog!
    Acho que vou devora-lo duma só vez.
    Portugal “não nos permite aventuras”, dizia uma professora minha do secundário quando a encontrei, passados alguns anos, no supermercado. “Pira-te daqui!”
    Hoje, pela primeira vez, coloquei a possibilidade de voar – sou um dédalo (arquitecta ou mais wanna be arquitecta).
    Vou ler atentamente e ver se tenho a dose de coragem necessária!
    Beijinhos e boa sorte por esse mundo fora! =)

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