To the sound of music..

Áustria. O destino europeu que mais queria, que sempre exerceu em mim uma curiosidade absurda, tal como uma paixão platónica, muito devido ao filme “Música no Coração” – vá lá… quem já não desejou correr e cantarolar por aqueles montes verdejantes onde a Julie Andrews escapava-se todos dias quando se fartava das lides de pseudo-freira? Traz à minha tona os momentos natalícios em família, quando depois de devorar a ave de rapina natalícia, tradicionalmente entitulada de peru, me sentava religiosamente com os meus primos mais novos no chão da sala e, ao sabor do maravilhoso bolo de chocolate da tia Aldinha, observámos o Capitão Von Trapp a desviar a doce fraulein Maria do caminho de devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo em troca do amor e uma cambada de filhos com voz de rouxinol.

De qualquer das maneiras, esses vales e montes continuam no íntimo dos meus desejos de “backpacking traveler”! Esta viagem só me permitiu 24 horas em Viena, mas nada me desmoralizou o esquema, pois fiquei igualmente maravilhada com a cidade, mal a visumbrei pela janela do autocarro. As ruas, as calçadas, os detalhes tão europeus, tão confortavelmente familiares e com um ligeiro travo a casa. Como me faziam falta no meu quotidiano arábico. Mal podia esperar para me “transmorfar” novamente em cidadão europeu e calcar o chão, sem pressa e sem destino.. just with the flow..!

A fome dilacerava o estômago de toda a tripulação. Optámos por um canto simpático, de aspecto acolhedor no centro de Viena. Havia iguarias gastronómicas a experimentar: o Schnitzel e a Sachetorte – o tão afamado bolo de chocolate vienense. Esganada de fome como estava, qual não foi o meu espanto quando vi surgir no meu prato o tal Schnitzel.. que traduzido para português se reduz apenas a um simples e singelo bife panado. Sem querer ferir qualquer susceptibilidade à gastronomia austríaca nem me querer armar em turistas nacionalista e arrogante, mas posso afirmar com toda a tranquilidade que, os bifes panados da minha mãe dão 10-0 ao tal.. Schnitzel. Terminado o jantar, passeei a vista pelas montras das pastelarias que surgiam como que por geração espontânea a cada esquina. Procurava aquela com a montra mais susceptivel de fazer as minhas papilas gustativas encherem um balde de saliva. O pior é que quase todas tinham esse potencial. Acabei por optar por uma pastelaria de apecto vintage de média luz e candeeiros a óleo, de onde saíam melodias de Mozart entoadas por um músico com o seu piano a um canto discreto do estabelecimento. Mandei vir a dose de cafeína habitual para acompanhar a Sachetorte que veio para a mesa em formato fatia generosa, acompanhada com uma quantidade de chantilly igualmente generosa. Mas quando a generosidade é demasiada, o tuga desconfia… e sem querer ser um tanto quanto convencida.. o meu bolo de chocolate deu 10-0 à tal.. Sachetorte.

Feitas as honras à gastronomia do sítio, restava-me apenas diambular pela cidade, coisa que optei por fazer logo pela manhã numa tour de uma hora que me levou aos principais pontos da cidade. Sentei-me confortável no autocarro, enquanto sintonizava o canal audio da língua portuguesa e o sol quente me fotossintetizava o organismo. Quando a tour começou, saíu do aparelho audio uma voz masculina de sotaque sinistramente cómico com um toque de colónia portuguesa do continente africano e umas facadinhas na gramática portuguesa típicas e, à Jorge Jesus, na qual não soube se haveria de rir ou chorar. A todo o momento pensei que iria ouvir “Ás àrvoreees somos nóizess..”. Mas não. Ao invés ouvi estas pérolas:

–        “Os háróis que por aqui ficarem..”
–        “Os mónumento, às fáixada.. tudo déstruidos…”
–        “Os báiro (entenda-se bairro) ondé àntis habitavem os móuradures (entenda-se moradores)…”

Focando somente a parte cultural e educativa da tour, passei pelo café central, local onde Sigmund Freud se costumava sentar e tecer neurónio para formular as suas teorias infanto-sexuais. Também passei pela catedral onde Mozart e a sua mais-que-tudo trocaram juras e promessas de amor e onde também choraram de “émoção” depois de darem o nó, como me informou o guia auditivo, facto que remete os Austríacos para um certo sentimentalismo e nostalgia que os caracterizam como povo. Gostei especialmente de saber esta parte pois essas mesmas características também estão presentes nos portugueses e assim, senti-me um bocadinho mais em casa. A valsa, por sua vez, era considerada a dança mais escandalosa do século XIX, dado o contacto físico, considerado exagerado para aquela altura. No entanto, era uma dança com muitos adeptos que enchia os salões de Viena, de tal forma que muitos tinham uma sala de partos, pois nem as grávidas se poupavam a balançar “escandalosamete” o útero.

Saí do autocarro em direcção ao hotel, pois já me restava pouco tempo para fazer as malas e voltar à versão aeromoça emirática. A caminho do elevador, fui surpreendida pela montra do café do hotel que exibia exímios exemplares de pastelaria, entre eles a tal.. Sachetorte. Eu sempre fui apologista de segundas oportunidades e como tal, pedi ao empregado para me trazer mais uma fatia, só para tirar a prova dos 9. A pontuação manteve-se.. 10-0 para o meu bolo de chocolate. Praticamente, o bolo é mais famoso que delicioso. Tenho dito!

MERY AL BONIFÁCIO

– – – – –

Austria. My most wanted european layover ever!
I always had this platonic passion about Austria, a lot because of the movie.. “The Sound of Music” – come on.. who did not wish at least once to jump and sing along on those hills, alive with the sound of music, just like Julie Andrews whenever she escaped from her kind of religious duties..? It brings me christmas childhood memories when me and my cousins seated on the living room, ate Aunt Alda´s chocolate cake – one of our few favorite christmas things – while lovely fraulein Maria was gently diverted from her God commitments to embrace Captain Von Trapp´s love and his seven beloved children.

Anyways.. those hills are still on my “backpack traveling dreams”. However, the 24 hours this layover allowed me, didn´t disappointed me at all. I fell in love with the city at the first glimpse I got from the window bus. The streets, the buildings, the european details so amazingly familiar with a slight flavor of home. How I miss it on my Emirati daylife. I could´t wait to walk on the streets with no purpose or destination.. just going with the flow.

From the wide choice of restaurants the streets of Vienna offered, we ended up choosing a charming corner restaurant. There were gastronomic treats to be tasted – the Schnitzel and the Sachetorte – the famous austrian chocolate cake. Starving as I was, by the time the dish came, I was proporcionally disappointed.. not because of the taste of course, but I already was familiarized with the Schnitzel for a long time ago without knowing it. The so called Schnitzel was nothing but a mere breaded fried steak, which I used to eat a lot in Portugal, and no offense seriously, but my mom´s recipe beat the austrian one by 10-0. After that I walked the streets in search of a good pastry in which I could taste the so called Sachetorte. I was equally looking for the most seductive window for my eyes, the one which would make my taste buds fullfill a whole bucket of saliva. However, all of those pastry windows had that effect.. which turned  my choice more difficult than I thought. I ended up entering a medium light pastry, with oil chandeliers and a piano musician. I ordered my regular dosage of caffeine, along with a generous slice of Sachetorte accompanied  with a equally generous amount of chantilly. However, the Sachetorte didn´t fullfill my expectations in a very generous way..! Without compromise anykind of susceptibility, my chocolate cake beats the Sachetorte by 10-0!

Giving the honours to gastronomy, it was time for touring the city around, which I decided to do first thing in the morning. I comfortably seated myself on the big fat bus and searched the audio channel for the portuguese language, while the warmy sun “photosynthesized” my human organism. It felt so damn good! From the audio channel came a masculine voice with a touch  of portuguese accent from Portuguese colonies in Africa along with some “stabs” on the portuguese grammar, typical from Jorge Jesus. For those who are not familiarized with such portuguese character, Jorge Jesus is a football coach, working with Benfica at the present moment, quite known for “murdering” portuguese grammar specially on live interviews. His incomparable air style gave him the nick game of “Richard Gere from Amadora” (a town in the suburbs of Lisbon where Jorge Jesus lives).

Mainly focusing on the tour´s cultural information, the bus passed on Café Central, the place where Sigmund Freud cooked his theories around sexuality. I visited also the cathedral where Mozart and his beloved wife changed vows and wipped their eyes after, in a very emotional and beautiful moment. According to my beloved audio guide, Austrians are very emotional people. I found this fact particular interesting as I recalled the way portuguese people are when it comes to the emotional field, expressed in several musics fado singers write. However, we are still “the ones and only” who own the word “saudade” to express the feeling of missing someone.

About dancing in Vienna, Valsa was considered to be the most scandalous dance of the 19th century, due to the physical contact, considered to be over exaggerated for that time. However, it filled Vienna´s saloons in such way that the owners were required to have delivery rooms for pregnant women, once they not would spare themselves of shaking a little bit their uterus.

I hopped off the bus heading the hotel. I had few time to pack and become once again an emirati stewardess. On the way to the elevator, I found myself looking delighted to the window of the hotel´s café. Among the other delicious treats, that was again.. the Sachetorte. Since I do agree with second chances I decided to give it another try. However, I mantained my opinion – “It´s just famous, but not that good” – said one of the cabin crew when we met at the lobby.

MERY AL BONIFÁCIO

 

6 thoughts on “To the sound of music..

  1. Muito prazer me deu ler este teu post…
    fez-me recordar quando eu segui literalmente o conceito “go with the Flow” , O meu Flo de Florian, o meu namorico austríaco em 2007. Sentia-me como a princessa Sissi, andava sempre de saias pelo menos quando ia a Viena. Mas como sabes sou campónia, por isso passei a maior parte do tempo no rio, nos lagos e nas montanhas. Foi o único país onde pensei que pudesse viver bem (sem ser em Portugal). Maravilhosas recordações :))
    Estás quase a chegar minha amiga. Que bom, que saudades!!
    Até já ****

    1. Já cá estou.. está na hora de virar campónia outra vez..! Tenho saudades do verde, do cheiro a natureza, aquele que Sintra me habituou desde os tempos que fugíamos para lá! Já tenho as minhas saias prontas, só falta mesmo sentir a terra por baixo do pé descalço! 😀 Até já! ***

  2. Para tudo que vc ta fazendo Lilian, temos post novo!!! Isso depois de varias tentativas em ir ao teu blog para ler novas historias.. Hoje sim deu certo!!! :)) é muito bom saber da minha amiga!!
    Noticia.. Oficialmente, perante a lei, já me tornei a Sra. Pinheiro… Casadinha no papel.. E em 1 mês teremos o SIM perante todos!!
    Vou sentir tua falta por lá.. Beijooo minha marineidje linda.. Te love ❤

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