Licença para voar

Já comecei a voar. Depois de duas semanas intermináveis à espera da licença.. o tal documento lá saíu.. a ferros.. mas saíu. Na clínica, tinham perdido os meus documentos, logo não podia ter o certificado médico, logo a licença não podia ser impressa. Olha que dominó burocrático tão lindo..! e ao telefone diziam.. “There´s nóting we cán dou mém.. u háf to weit!” (adoro este sotaque anglo-arábico..).

Enquanto a licença não veio fui turista no Dubai e aproveitei para exercer funções de “groundstaff”, ou seja, não fazer nenhum. Também soube bem ao fim ao cabo de 8 semanas intensíssimas de treino. Ouvia todo e qualquer relato dos meus colegas que já tinham começado nas lides aeronáuticas. Reclamavam sobretudo dos voos para a Índia, onde relatavam episódios “aero-zoológicos” dentro das cabines – comida pelo chão, “grunhidos” e a universalidade dos gestos “sim” e “não”  foi posta em causa: “chicken or beef?” – e eles lá abanavam a cabeça para um lado e para o outro como os bonecos das caldas.. é de facto muito esclarecedor.

Depois de ter a licença na mão vieram os primeiros 2 voos experimentais. Ida e volta para Instanbul e depois Dehli.

Antes de qualquer voo o procedimento é este.. 2 horas antes tem que se estar obrigatoriamente nos Headquarters da Emirates na zona de “Cabin Crew Departures”. Há um painel à entrada com a lista dos voos onde somos informados, através de uma luz verde que surge ao lado do código do aeroporto, quando temos que dar entrada no “E-Gate” e prosseguir para a sala de briefing.

O briefing é nada mais nada menos que uma breve apresentação do voo e de todos os aeromoços e aeromoças com quem vamos passar as próximas horas ou dias. É também onde testam os nossos conhecimentos, através de uma pergunta do manual de Safety Talk – a bíblia sagrada que temos que saber na ponta da língua sobre procedimentos a ter a bordo em qualquer situação. É um momento um pouco carregado de pressão pois há sempre a probabilidade de nos calhar alguém menos amistoso que nos vai fazer exactamente a pergunta daquele assunto que não estudámos muito bem.. e desta vez não há cábulas que o valham, muito menos a ajuda do público ou os 50/50, nem as palavras reconfortantes do malato. Quem não souber a resposta.. ou tem sorte, ou fica com uma posição menos “responsável” no avião, ou volta para o training college.

No primeiro voo experimental, toda eu tremia nesta fase enquanto o raio da luz não ficava verde. Mas gostei particularmente da azáfama emocional que rodeia este espaço, entre a zona confortável e o desconhecido, separados apenas por um “portão”. Enquanto eu lia o manual e a luz não ficava verde, dos meus dois lados, cerca de 20 a 30 Cabin Crews faziam o mesmo entre goles de café, água ou bocejos de sono; outros passavam o E-Gate card pelo portão; outros acabavam de chegar nos autocarros carregados de malas e expectativas; outros chegavam juntos e separavam-se cada um para o seu destino depois de se despedirem; outros  reencontravam colegas e amigos que já não viam há séculos que.. sabe-se lá por que forças da natureza, tinham conseguido manejar a probabilidade de se encontrar ali, onde passam milhares de assistentes de bordo a toda a hora.

Sento-me ali quase todos os dias, é uma rotina dentro de uma profissão que de rotineira pouco tem. Dali para a frente é tudo uma surpresa – o briefing, a pergunta que me vai calhar, as pessoas com quem vou viajar, os passageiros que vou encontrar, o destino para onde vou voar, o hotel onde vou ficar. É de facto como diz o Tom Hanks no filme Forest Gump  – “.. it´s like a box of chocolate.. you never know what you´re gonna get”.

Estes voos experimentais são maioritariamente para observar como acontecem as coisas a bordo e incluem visitas ao cockpit no take-off e na aterragem. É tudo uma grande emoção quando fazemos o take-off, mas a descida faz-se a passo de caracol.. não demora muito até “encostar à box”..! A sorte é que nem o piloto nem o oficial dão por ela de tão entretidos que estão com tanto botão e responsabilidade. Se ressonar também não ouvem pois passam o tempo todo a ouvir as comunicações de rádio com os headphones postos!

e pronto.. a partir daqui sou oficialmente aeromoça!

Despeço-me com amizade e com uma foto do meu local de trabalho e das tão afamadas “big fat whales”!

Insha Allah Abibis!

MERY AL BONIFÁCIO

11 thoughts on “Licença para voar

  1. Muito bom! Especialmente o título e o sub título do blog!

    Ainda assim acho que deveria mudar o pseudônimo para Bicha! haha

  2. Muito Bom my lovely mary……….estou tão orgulhosa de ti “filha”!!!!!! não te despenhes!! e arranja um piloto rico!!!;) brincadeirinha…uma rabibi bem rico;) Beijos continua a escrever, que a tua escrita emociona-me

  3. Espectacular Maria! Espero que aproveites à grande para viajar o mais possível e fazeres dinheirinho e seres a verdadeira emigra: voltar para Portugal e fazer a casa mais bimba que há na aldeia! AHAHAHAHA *EVIL LAUGH*
    Beijo!

  4. Adorei o texto Maria =) ainda bem que todas as burocracias se resolveram e estás finalmente a voar (algo que adoro fazer, mais do que velejar). Espero que te corra tudo bem miga, estou a torcer por ti. Tenho imensas saudades. Quando puderes, manda-me por msg no face a tua morada fixa(se a tiveres lol) e o numero de tlm.

    Beijão enorme e boa sorte 😉

  5. Que espetáculo… Adorei a parte dos indianos lololol..
    Lido com está indecisão, sim não sim não, o dia todo!!!
    Minha amiga, quando fazes um vôo para essas bandas??? Ia amar ir buscar minha amiga xiquerrima ao aeroporto internacional do RJ 🙂
    Beijossss… Miss u

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