For everything, there´s a procedure

Da perspectiva de passageiro para a de aeromoça muda muita coisa. Garanto que não volto a olhar para um avião da mesma maneira. O training acabou. Com ele vão tardes passadas em simuladores, a abrir portas em situações normais e de emergência, a simular 1001 situações de risco e aborto de take-offs, a apagar fogos dentro de casas-de-banho, fornos e outros apetrechos aeronáuticos e sonhar inúmeras vezes com as palavras “ABRAM OS CINTOS, DEIXEM TUDO PARA TRÁS, SIGAM NESTA DIRECÇÃO” e dali, toca a saltar para o escorrega de emergência. Com GMT tive uma ligeira lavagem cerebral sobre procedimentos médicos a ter a bordo caso um passageiro vá com a breca e desmaie, tenha um ataque asmático, cardíaco, epiléptico ou hipoglicémico, ou simplesmente decida dar à luz a bordo. Com Uniform & Grooming aprendi todos os truques de empiriquitanço possíveis e imaginários para vestir a minha nova faceta profissional e sorrir 24 horas ao dia, 7 dias por semana. Com Segurança aprendi a ser ninja em situações de força maior. Por exemplo, se um passageiro decidir esmurrar-me a cara (como já aconteceu a alguns assistentes de bordo) tenho todo e qualquer direito de lhe aplicar um mortal encarpado com potapé à retaguarda e.. assunto arrumado. Em “Service” aprendi toda a arte de bem servir o cliente a bordo!

Tudo isto condensado em 8 semanas onde a palavra madrugada passou a ser o pão nosso do meu dia e o despertador um “post it” sonoro que às 5h00 da manhã me lembrava que tinha que me levantar, quando me tinha deitado há exactamente 4 horas atrás!

O meu pai sempre me disse que quando não se consegue chegar a horas, chega-se antes, por isso quando descia o prédio para apanhar o autocarro para as aulas nem o dia tinha nascido (mas isto só acontecia às vezes). Ao longe ouvia o chamamento “vuvuzélico” que acordava Al Qusais devagarinho para a 1ª reza do dia.

No feedback final fui classificada em “advanced” pela minha “professional imagine” – significa isto que a minha indumentária estava perfeita todos os dias – desde o uniforme, ao cabelo, à minha maquilhagem, etc etc. “Your grooming is imaculated!” – disse-me Donnagenne, a responsável pela formação em Service. Natural do Zimbabwe, alta, magrinha, esguia e com um sentido de humor memorável a mandar para o sarcástico. Uma versão moderna e feminina de hitler no bom sentido e sem bigode – falava com orgulho e determinação da evolução da sua carreira. Creio que cada um de nós viu nela um modelo a seguir. Reparava e comentava várias vezes quão perfeito estava o meu cabelo. Se ela sonhasse que o truque estava em não lavá-lo durante 2 a 3 dias, creio que tinha mudado ligeiramente a sua opinião. A água no Dubai vem do mar, é submetida e um processo de dessanilização e depois chega a todas as casas. Não a posso beber directamente da torneira porque não é potável e tenho que ter cuidados redobrados com a pele porque seca bastante. Os efeitos também se fazem sentir no cabelo. Como tinha que andar sempre com ele apanhado durante o training num pompom de bailarina pindérico, adoptei esta conduta em prol da minha saúde capilar, que para além disso possibilitava-me mais 15 minutos no Vale dos Lençóis e… quiçá.. uma bónus pela minha “imaculada” imagem profissional!

Quanto ao meu aniversário, não o deixei passar sem festarola mas não tive tempo nenhum de preparar algo temático como manda a minha tradição. Contudo, como me disse a Adrianne, estar num país diferente já é temático o suficiente! Aqui tive a minha 1ª crise de “homesick” à séria.. faltou-me muito a famelga e as pandilhas do costume! No entanto, tive direito a uma fatia de bolo bem esfregada por toda a minha face, uma tradição que adoptámos quando alguém do grupo de cá faz anos. Também tive direito a um jantar filipino que a minha flatmate fez questão de fazer e ainda éramos umas 15 bocas para alimentar. Um anjo esta rapariga! A melhor flatmate de sempre!

Agora aguardo a minha licença para voar. Finalmente vou poder disfrutar do “dolce fare niente” e ter uns dias de férias! Aproveitei para dar aso às lides domésticas e aperfeiçoar a formação em fada do lar. Oiço o som de água a correr de uma fonte colocada no pátio interior do meu prédio. Um promenor zen que transmite todo um ar shanti à minha varanda, onde me encontro de momento a reportar as minhas crónicas e a ouvir Groove 4tet.

Este último parágrafo é dedicado à Raquel, uma vez que encontrei informação bastante interessante sobre o futebol no Dubai..

  • A equipa com base no Dubai é Al-Ahli e é uma das mais prestigiadas nos Emiratos Árabes Unidos. Como não podia deixar de ser a sua cor é o.. VERMELHO e.. o seu logo original tinha um.. FALCÃO..! Hoje em dia o logo tem a cabeça de um cavalo, mas o bom gosto mantém-se no que respeita a côr dos equipamentos que continua a ser.. VERMELHA!

Há coisas fantásticas não há? Carrrrrega!

MERY AL BONIFÁCIO


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